“Último olhar”: A minha estreia com a escrita de Miguel Sousa Tavares

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“Último olhar”, editado pela Porto Editora, é o mais recente romance publicado por Miguel Sousa Tavares. Este novo livro está a ter boa receptividade pelos leitores da blogosfera e do bookstagram. Por incrível que pareça, nunca tinha lido nada deste autor e só tenho ouvido falar muito bem dos livros dele. Muitas pessoas já me disseram que Miguel Sousa Tavares tem livros extraordinários e a maioria das recomendações recai sobre o “Equador” e o “Rio das Flores”. Na sinopse de “Último olhar” pode ler-se que este livro se centra numa “história sem tréguas nem contemplações, onde o passado cruza o presente e o presente interroga o futuro que queremos ter. Da primeira à última página, até decifrarmos o que se esconde atrás do título“. Vamos conhecer a minha opinião sobre este livro?

 

“Último olhar”: O que dizer da minha leitura deste livro?

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Começo por dizer que este livro foi uma agradável surpresa! A escrita que encontrei em “Último olhar” é bastante fluída, sem demasiados floreados que nos façam ter vontade de desistir e com linguagem directa qb quando era necessário para tornar a narrativa mais real e credível. Toda a história está construída em torno de duas personagens principais. Por um lado, temos Pablo, sobrevivente da Guerra Civil de Espanha e do campo de concentração de Mauthausen, que ficamos a conhecer já numa fase tardia da vida, num lar para idosos, em plena pandemia por COVID-19. Por outro lado, temos Inez, médica de 37 anos com todos os motivos para ser feliz: carreira de sucesso e um marido a seu lado, numa vida de causar inveja a muitas pessoas. Mas, como sempre, as vidas invejáveis têm sempre um “lado lunar” e é isso que descobrimos com o decorrer da narrativa.

Houve uma abordagem da história de que gostei bastante (e que não sei se terá sido claramente pensado por Miguel Sousa Tavares ou não). Em vez de fazer desenrolar a história de Pablo no campo de concentração de Auschwitz, trouxe para a história o campo de concentração de Mauthausen para onde muitos dos deportados de França seguiam. Aqui, temos um jovem adolescente Pablo que consegue contornar o esquema de selecção nazi e ser colocado no campo das crianças e das mulheres por parecer mais jovem do que realmente é (é separado do pai à chegada, indo o pai para o campo dos homens onde veio a morrer mais tarde. O momento em que Pablo sabe desta notícia é escrito de uma forma bastante poética e especial: “E, então, sim, as lágrimas soltaram-se-lhe livres dos olhos, num Guadalquivir sem fim, em direcção ao mar do sul de Espanha, onde ele tinha nascido e onde ele agora devia estar. Em paz”, (pág. 120). Jovem adolescente já carregando decisões de homem no seu percurso de vida, é aqui que perde a virgindade e é aqui que cresce e resiste a um dos piores locais da Solução Final Nazi, tudo graças ao que lhe foi ensinado e passado pelo seu pai enquanto jardineiro/agricultor, tendo sido responsável por cuidar da horta da casa de um dos oficiais SS do campo.

Mais tarde, e durante o resto da sua vida, Pablo pensaria muitas vezes porque razão aquelas dezenas de milhares de prisioneiros, reduzidos a uma condição sub-humana e a um horizonte de vida sem esperança alguma, guardados apenas por umas dezenas de homens armados, nunca tinham pensado em revoltar-se e enfrentá-los, mesmo de mãos nuas, mesmo sabendo que muitos tombariam logo” (pág. 109)

Mas, apesar de tudo, a vingança dos espezinhados é quase sempre mais complacente do que a barbárie dos seus carrascos. Talvez porque o primeiro desejo de quem sobrevive não seja o de querer matar por igual. Ou porque o sobrevivente ainda não acredite que pode vingar-se impunemente e trate ainda, e só, de gozar o facto de ter sobrevivido” (pág. 134)

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Depois de acompanharmos a história de Pablo até à sua vida adulta, de ter casado e ter tido filhos, divorciado e seguido a sua vida na sua amada Espanha, conhecemos mais detalhes sobre Inez e sobre a sua relação com Paolo, um médico italiano da cidade de Bergamo, um dos principais epicentros da CODIV-19 em Itália. É nesta parte da história que nos são apresentadas reflexões sobre o que foram algumas das decisões tomadas no decorrer da pandemia em diversos países, como a nossa vida mudou tanto nos últimos dois anos e como isso pode ter afectado a saúde mental e os laços entre as pessoas: “Cortaram-lhes as visitas dos filhos e dos netos nos lares, passaram-se meses até que os deixassem simplesmente vislumbrá-los através da janela do lar do outro lado da rua (…), encurralado como animais à espera da hora em que inimigo invisível viria para os ceifar sem defesa” (pág. 190).

E nesse silêncio opressivo de uma cidade sem trânsito nem sinais de vida à vista, ela detinha-se ainda nos sinais vermelhos, cumprindo um ritual sem sentido, ou talvez não, e sintonizava o rádio do carro no canal de música” (pág. 193) – esta foi uma passagem que me causou arrepios pois faz-me recordar as ruas do nosso Portugal durante o primeiro confinamento…

Toda a descrição do desespero vivido por profissionais de saúde e por doentes e a incerteza quanto à sobrevivência estão bem retratados na personagem de Paolo. E toda a angústia dos entes queridos é vivida a cada mensagem e a cada telefonema de Inez para o seu amado. Acho que o livro se torna, ao mesmo tempo, duro e especial por tudo o que se consegue descrever sobre uma pandemia que ninguém julgaria possível e que se pensava que nunca viria a acontecer num mundo tão evoluído como o actual. Este livro vem mostrar que uma das certezas da nossa vida é mesmo a morte e que ela chegará sempre, a passos mais ou menos rápidos, e que deixará sempre a sua marca em todas as pessoas que continuam a viver. Seja o sabor doce de tudo ter conseguido ou o amargo de não ter conseguido viver tudo aquilo que se desejaria. Fico a pensar no que terá sido o último olhar de Pablo, antes da sua derradeira decisão, e de Inez, ao fechar um capítulo da sua vida que não ficou totalmente escrito…

Gostei muito de ler este livro e acho que foi uma muito boa estreia na escrita de Miguel Sousa Tavares!!

 

Outras sugestões de leitura de Miguel Sousa Tavares

Para miúdos da colecção Educação Literária, obras de leitura recomendada pelo Plano Nacional de Leitura para o Ensino Básico e Secundário:

  • Ismael e Chopin (2020). Sinopse: Um dia, quando for altura, a música há de ser desenterrada da toca onde a escondemos, será mostrada aos homens que percebem dessas coisas e o mundo há de conhecer então a mais bela de todas as músicas que Frédéric Chopin, o meu amigo, escreveu. Mas todas as coisas têm o seu tempo. Livro classificado como literatura juvenil.
  • O segredo do Rio (2021). Sinopse: Então, peixe, vamos fazer um acordo. Tu ficas a morar aqui, constróis a tua casa e fazes a tua vida. Mas ninguém pode saber que tu falas a língua das pessoas e que conversamos os dois. Se souberem que eu falo com um peixe, vão achar que sou maluco e tiram-me daqui. Ouviste? Este rio tem um segredo e esse segredo é só meu. Livro classificado como literatura juvenil.
  • O planeta branco (2020). Sinopse: Lá fora, a noite estava semeada de milhões de estrelas, planetas, cometas, asteroides nos seus voos loucos, constelações de todos os tamanhos e das mais diferentes formas. Olhou por cima do ombro direito, pela vigia lateral, procurando absurdamente uma luz branca que julgava ter visto algures, mas não se lembrava quando, nem sequer era capaz de dizer se a tinha visto, de facto, ou se apenas a imaginara em sonhos. “Haverá por aí alguém à escuta? Alguém que nos veja e que nos guie?”. Livro classificado como literatura juvenil, sendo uma leitura recomendada para os 5º e 6º anos de escolaridade.

Para graúdos:

  • Sul. Sinopse: Resultado de várias viagens que fez como jornalista, Sul é um livro ímpar, que nos apresenta o jornalista, viajante e contador de histórias, descobrindo e dando a descobrir o lado mais profundo e verdadeiro de cada um destes países. Sul é um hino às experiências que nos enriquecem de forma indelével e um convite irrecusável para embarcar numa aventura intemporal. Livro classificado como literatura de viagens que integra as recomendações do Plano Nacional de Leitura.
  • Cebola crua com sal e broa. Da infância para o mundo. Sinopse: Eterno contador de histórias, Miguel Sousa Tavares dá vida aos seus primeiros anos: da infância à juventude, dos jornais à política. O testemunho de uma vida única, com a história contemporânea de Portugal como fundo.
  • No teu deserto. Sinopse: Vinte anos após o fim de uma longa viagem (física e interior) pelo Sahara, uma fotografia antiga motiva Miguel Sousa Tavares a escrever No Teu Deserto. Tantos anos depois dessa primeira publicação, este livro continua a marcar os leitores pela belíssima homenagem ao silêncio e à imensidão do deserto, à amizade e à vida.
  • Não te deixarei morrer, David Crockett. Sinopse: Textos belíssimos como «A passagem», «A fidelidade», «O espião que ficou no frio», «Nova York – Lisboa» ou «O velho de Alcântara-Mar» estão disponíveis neste que é um dos livros mais marcantes de Miguel Sousa Tavares.

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