“Um longo caminho para casa”: Um romance histórico que te vai aquecer o coração!!

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“Um longo caminho para casa”, de Alan Hlad

(Link WOOKLink Bertrand)

 

“Um longo caminho para casa” é o romance histórico de estreia de Alan Hlad. É passado em Inglaterra durante o Blitz e, apesar de se passar durante a Segunda Guerra Mundial, não é demasiado pesado ou gráfico. O autor traz-nos um livro com uma narrativa fluída, de linguagem e escrita cativantes a que não se consegue ficar indiferente! Hlad descreve os ataques do Blitz e os acontecimentos verídicos introduzidos na história com liberdade criativa, descrevendo os momentos mais negros com um olhar menos duro que não lhes retira importância. É exemplo a descrição do ataque ao porto de Liverpool (pág. 51):

Embora o porto de Liverpool tenha sofrido fortes bombardeamentos, a maioria das áreas residenciais da cidade tinha sido poupada. Esse não era o caso de Londres. Uma névoa cinzenta pairava sobre a grande cidade. Ollie colocou a cabeça fora da janela para ver melhor. O vento soprou sobre o seu rosto, enchendo-lhe as narinas com o cheiro de fumo. E, quando o comboio chegou aos limites da cidade, viu fábricas destruídas edifícios queimados, uma igreja com a torre derrubada e blocos do que costumavam ser casas geminadas reduzidas a escombros fumegantes. Parecia que Londres estava a ser cremada, aos poucos“.

“Um longo caminho para casa”: O que te espera neste livro?

Estás com receio de ler este livro por poder ser romance e demasiado cor-de-rosa?! Não receeis que não será isso que irás encontrar… Este livro é a mais merecida homenagem ao Serviço Nacional de Pombos que participou na Operação Columba, transportando mensagens entre os dois lados da Mancha, contribuindo para a vitória aliada. O que dizer da intervenção de Churchill na reunião que antecedeu o início de toda a operação (pág. 64)?

Recomendo que reservemos algum tempo para ouvir o senhor Wallace e os membros do Serviço Nacional de Pombos. A sua perceção pode ser extremamente valiosa para o êxito da nossa missão. A inteligência, o espírito e a coragem britânica é o que nos levarão à vitória

Duquesa, a pomba de estimação de Susan, é a personagem maior entre os milhares de pombos libertados, inspirando-se a sua história em factos verídicos (não vou descrever aqui para não haver spoilers mas que podes ficar a conhecer em maior detalhe na nota do autor no final do livro). Ao mesmo tempo, este livro homenageia também as relações familiares, com a relação de Susan com o seu avô Bertie e a descrição de Ollie dos seus pais, motivando-o a juntar-se à Royal Air Force e combater nos céus da Europa, num espaço e numa guerra que, à primeira vista estava muito longe de ser a sua (pág. 83):

O estômago ácido de Ollie transformou-se numa raiva efervescente. As histórias contadas nos jornais não conseguiam descrever a intensidade do que estava a acontecer. Era uma guerra. Pessoas morriam. E os Estados Unidos não estavam a fazer nada, excepto declarar neutralidade quando bombas caíam sobre Londres. À medida que também no campo ecoavam explosões, Ollie percebeu que mais homens, mulheres e crianças não veriam o próximo nascer do Sol. Silenciosamente, prometeu voltar a voar. Não importava a que custo, encontraria uma maneira de livrar os céus dos nazis

Fiquei rendida à escrita deste livro desde as primeiras páginas!! Esta é uma leitura fluída e fácil, que não afasta os leitores das suas quase 400 páginas. E as críticas a nível internacional mostram exactamente isso!

 

“Um longo caminho para casa”: O que senti ao ler este livro e o que aprendi de novo?

A história gira em torno de quatro personagens: Susan, o seu avô Bertie, Ollie ou Oliver do Maine e o Capitão Boar da RAF, por quem fui adquirindo um especial “carinho” ao longo de toda a narrativa (quem não teve vontade de lhe bater quando rejeitou de forma tão rude e ofensiva a comida que Madeleine lhe preparava e que significava a diferença entre ele sobreviver e morrer?!). Gostei bastante da forma como o autor introduziu informações históricas para compreender a dimensão da realidade em que se inspirou para escrever este livro. Por exemplo, ajuda-nos a compreender a utilização de pombos como mensageiros e que acontece desde os Egípcios. Os pombos são personagens principais deste livro, mesmo que vistos através dos olhares de Bertie, Susan e Ollie, e são descritos de forma profundamente carinhosa e valorizadora ao longo de todo livro.

E, claro, impossível não refletir sobre como os direitos dos animais eram encarados à época. O que dizer da descrição dos soldados britânicos a Susan do transporte dos pombos em tubos apertados, em vez de gaiolas depois da primeira largada?! Gostei também da forma como fala de um exército fantasma britânico em Clacton-on-Sea, o local escolhido para a largada de pombos em direção à França ocupada. Este exército só pode ter sido inspirado no exército fantasma americano utilizado na altura da Operação Overlord (desembarque na Normandia no Dia D). E a referência ao episódio de Dunquerque e aos milhares de soldados britânicos sacrificados em Calais nessa altura – “cordeiros de sacrífico” como lhes chamou Bertie, episódio descrito nas páginas 229 e 230?! “No total, mais de 300000 soldados fugiram do porto de Dunquerque numa confusão de embarcações militares e frágeis barcos de pesca. Foi o milagre de Dunquerque“. E, claro, ler um livro passado na Segunda Guerra Mundial é também ler sobre as capacidades militares de Aliados e Nazis e aprendemos um pouco mais sobre as aeronaves utilizadas pela RAF (Spitfire e Blenheim, as aeronaves que transportaram os pombos para França) e pela Luftwaffe (Messerschmidt).

Todo o voo sobre o Canal da Mancha a bordo do Blenheim, fez-me recordar o filme de animação da Disney, Valiant, que retrata exactamente a história dos pombos utilizados pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial, um complemento engraçado à leitura deste livro. E não pude deixar de ser transportada para o género de escrita de Imogen Kealy, no livro “Libertação” sobre a Nancy Wake, na descrição os alemães a descerem a encosta enquanto Ollie e Boar se escondiam (“Os travões do veículo rangeram. Ouviram-se vozes guturais e o estalo metálico de cartuchos enfiados em armas. Por entre a palha, percebeu que havia movimento. Pareciam tartarugas cinzentas no topo da colina. Primeiro, uma tartaruga. Em seguida, outra tartaruga. E outra. Em segundos, um pelotão de soldados alemães, usando capacetes em forma de concha, estava na colina“, pág. 177).

E os voos bidireccionais de Duquesa a transportar mensagens ente Susan e Ollie?! O que dizer a este espírito de sacrifício que sabemos que muitos animais conseguem ter em determinados momentos das suas vidas, fazendo de tudo pelos seus donos? Posso dizer que este voos me foram deixando o coração apertado e que foi sendo difícil de imaginar tudo a acontecer…

Ollie fingiu entender om que eram trufas acenando com a cabeça. Depois saiu com a Duquesa enfiada debaixo do braço. O tenente ficaria fulo, talvez até tentasse atirar nele se se apercebesse. Mas ele não se importava. Só queria devolver o pombo a Susan. E, a cada momento perdido, sentia que a oportunidade se esvaía” (pág. 192)

Susan caiu de joelhos. Os seus músculos ficaram fracos. Impotente, observou a Duquesa a voar em direção ao canal da Mancha, até que desapareceu de vista” (pág. 208). E, claro, ver Susan aperceber-se que, em breve, estaria sozinha, também me deixou de coração apertado: “Entre tosse, fungadelas e o cheiro abafado de eucalipto, Susan ouviu uma versão muito resumida da história. Já a tinha ouvido talvez uma centena de vezes, mas desta vez era diferente. As palavras dele eram preciosas, pois percebeu que as vezes que ouviria as suas belas histórias estavam contadas” (pág. 304).

E não podia deixar de fora desta minha opinião a forma como foram retratados e homenageados os membros da Resistência Francesa neste livro, com as personagens de Madeleine (que acolheu Ollie e Boar em sua casa), do médico que os ajudou a recuperar e de Lucien, o monge desfigurado que teria um papel essencial no final desta narrativa. Sem dúvida, elementos essenciais para o sucesso do Aliados!

Gostei mesmo muito de ler este livro. Acho que é um livro especial, que nos parte um pouco o coração mas que por ser tão focado na essência da relação entre as pessoas, nos mostra, que mesmo no meio dos acontecimentos mais duros e dramáticos, pode haver luz. Leiam este livro que, tenho a certeza, não vão dar por desperdiçado o tempo dedicado à sua leitura! Uma leitura conjunta que organizei para o projecto “Ler é respeitar a história”.

 

“Um longo caminho para casa”: O Resumo Da Minha Opinião

  • A escrita de Alan Hlad, quase poética e muito envolvente, permitiu saber mais sobre uma operação organizada durante a Segunda Guerra Mundial, sem ser demasiado pesada ou gráfica nos episódios mais violentos.
  • Gostei muito da informação introduzida sobre os pombos e a sua utilização ao longo da histórica, bem como da abordagem aos direitos dos animais.
  • A organização do livro em capítulos não muito extensos facilita a leitura e não faz perder o fio condutor ao longo da história, não sendo necessário andar para trás e para a frente na leitura para acompanharmos a evolução das personagens e da história.
  • Achei a capa da edição portuguesa muito bonita (prefiro esta à da versão original), bem como o tamanho e tipo de letra usados na edição facilita a leitura e torna toda a experiência muito agradável.

 

Detalhes Do Livro:

Título: Um longo caminho para casa (título original: The long flight home)

Autor: Alan Hlad

Editora e data de publicação: Editorial Planeta, Março de 2021

Encadernação: capa mole

Páginas: 384

Classificação temática: Literatura – Romance

Classificação Goodreads: 4,15

 

Este livro foi gentilmente cedido pela editora. 

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