“1 minuto e 36 segundos”: O olhar sobre a vida de um estudante de Medicina

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“1 minuto e 36 segundos”, de Pilar Burillo Simões

(Link WOOKLink Bertrand)

 

Pilar Burillo Simões, autora do blog Nutsbook e do livro “1 minuto e 36 segundos”, é mais que uma profissional de saúde. É uma apaixonada pelas palavras pinceladas de um humor especial. E que partilha connosco a bem da sua sanidade mental, como ela própria nos diz, mostrando o poder de catarse que as palavras podem ter sobre todos nós. A propósito da leitura do seu livro, desafiei a Pilar para uma entrevista em que nos fala melhor desse livro, do que é ser aluno de Medicina e, acima de tudo, qual são os verdadeiros superpoderes de um profissional de saúde em tempos de pandemia. Aqui fica o resultado desta entrevista que espero que gostes.

 

O livro “1 minuto e 36 segundos” é, um pouco, a sua autobiografia em tempos de preparação para o exame da especialidade, mas, e porque os leitores têm sempre curiosidade em conhecer um pouco mais sobre os autores, quem é Pilar Burillo Simões? Como tem uma médica esta paixão pela escrita?

Quando estava na faculdade, costumava responder que era Filha e Amiga profissional e Estudante de Medicina nas horas vagas. Já não sou estudante mas o meu entendimento sobre essa questão mantém-se. Sou os meus, primeiro. E, logo a seguir, sou o meu trabalho, que adoro. Não me defini como escritora nem nada semelhante porque escrever parte da minha forma de me relacionar comigo e com o mundo e já exercia esse papel antes da Medicina entrar em cena. 

 

Como foi a experiência de escrever um livro a descrever um dos moimentos mais marcantes e importantes da vida de um estudante de Medicina? Ficaram muitas aventuras e desventuras por contar?

Foi, sobretudo, um exercício de auto-ajuda. Todos os temos revestidos de várias coisas. Há quem vá correr, quem oiça música, quem cozinhe. Cada um de nós tem a sua maneira de processar as vivências que têm e às quais recorremos quando nos sentimos assoberbados. Este projecto manteve-me concentrada no objetivo final ao mesmo tempo que encerrava em paz cada capítulo que estava destinado a terminar. Quanto às aventuras, ficam sempre. Quando escrevemos não ficção temos de ter um certo cuidado quando equacionamos o que mostrar ou não, sobretudo quando não somos os únicos envolvidos. Mas escrevi – e publiquei – o que precisava para continuar bem a viagem. E para ter um final feliz!

 

Qual sente que foi a maior aprendizagem que esse ano na sua vida lhe trouxe, tanto a nível profissional como pessoal?

É uma expressão um pouco informal mas acredito muito nela. “Faz a tua cena”. Não tem necessariamente de referir-se ao aspecto laboral e por isso não o digo dessa maneira. Acredito que todos temos um papel durante esta viagem que fazemos. Pode não ser o mesmo durante todo o caminho, mas, a cada momento da nossa vida, há uma missão que lhe corresponde. Cumprimo-la e esperamos pelo melhor. Tendo isto presente, gere-se melhor a ansiedade que os imprevistos e as contrariedades provocam, porque reconhecemos que escapam ao nosso controlo e que, portanto, a ansiedade que geram é inútil. Em última instância, há um salto de fé que é sempre necessário. Essa lição foi ainda mais importante considerando que entrei para a linha da frente quatro meses depois…

 

Pode falar-nos um pouco melhor sobre o seu The Nutsbook? A escrita funciona como uma catarse para si do que vê, todos os dias, enquanto médica?

Não só enquanto médica. A verdade é que escrevo desde que sei escrever – a minha mãe ainda guarda, orgulhosa, as histórias que inventava na primária. Comecei a fazê-lo de forma mais estruturada com 13/14 anos e continuei a fazê-lo na faculdade até que, em 2017, nasceu o The Nutsbook, numa tentativa de compilar – e partilhar, naturalmente – tudo o que ia escrevendo. Peças que nasciam, como sempre, do que se passava à minha volta. Em termos pessoais, sociais, políticos. Nunca soube escrever sobre outra coisa que não aquilo que vejo. 

Claro que assim sendo, uma vez que a minha realidade é, durante grande parte do meu dia, o exercício da profissão médica, há muita coisa que parte desse terreno. E a linguagem está bastante impregnada de termos médicos, às vezes mais do que gostaria. Acaba por ser como falar duas línguas. Há sentimentos que se expressam melhor numa do que noutra e se houver alguma coisa que eu sinta que se transmite melhor se estiver em “medicinês”, vou sempre escrever dessa maneira.

 

No seu livro, fala sobre a saúde mental e sobre a importância de cuidarmos dela e de termos tempo na agenda só para nós. Sente que os portugueses descuram muito a sua saúde mental?

Infelizmente e apesar de sermos um país considerado desenvolvido, é difícil falar de saúde mental quando uma percentagem tão significativa da população ainda tem dificuldades profundas em assegurar a sua mera sobrevivência com dignidade. É claro que os números da nossa pobreza não são aqueles que eram em gerações anteriores, mas entre essa situação de precariedade extrema e o nível de conforto que permite às pessoas equacionarem a sua saúde mental como prioritária, se encontra uma percentagem nada desprezível da população. Há outras preocupações que passam à frente, também porque nem sempre é fácil de interiorizar que independentemente do quão supérfluo possa parecer o esforço que aplicamos em “estarmos bem”, quando não estamos, é pouco provável que tudo o resto funcione como deveria. Finalmente, temos a questão das ferramentas. Cada vez mais temos mais estruturas a que recorrer no que toca a apoio na área da saúde mental mas não deixa de ser preocupante que a maioria provenha do setor social. É difícil acreditar que a saúde mental é prioritária quando o próprio SNS tem uma oferta limitada, com longas filas de espera e nem sempre acessível do ponto de vista territorial.

 

Estando novamente em confinamento, é incontornável falar disso… Como sente que está a ser afetada a saúde mental dos portugueses por toda esta realidade que vivemos há mais de um ano?

Do ponto de vista da experiência pessoal, diria que todas as ansiedades, inseguranças, medos e fantasminhas interiores se agravam quando fecho a porta atrás de mim ao fim do dia. Quando apago as luzes do quarto para dormir. Sei por experiência própria que escuridão, o espaço fechado e a solidão actuam como catalisadores muitas vezes e é uma experiência que é comum a muitas pessoas. A situação que vivemos veio expor quase toda a Humanidade a pelo menos um destes “ingredientes” e durante já bastante tempo e o risco é evidente. Por esse motivo é que sempre considerei que ser médica é um privilégio ainda maior nesta altura, porque tenho acesso a coisas simples como ir de casa para a estação a pé, a viagem de comboio, o café com os colegas nos corredores do hospital…

E, por isso, retomo a mensagem de há bocado, no que diz respeito aos imprevistos. Se calhar a missão que nos dá o isolamento é cuidarmos de nós porque não há outra coisa a fazer. Tirarmos esse tempo, já que ele nos foi oferecido, para compreendermos que aspectos da nossa vida é que nos fazem estar bem e para nos rodearmos deles o mais possível. Depois da missão cumprida, só nos resta confiar.

 

Para finalizar, e como profissional de saúde, qual a principal mensagem que gostaria de deixar a todos os portugueses em tempos de pandemia?

Tenho sentimentos mistos em relação aquilo que tem sido a reacção da sociedade à pandemia. Há vários factores envolvidas e essa é uma conversa muito interessante mas longuíssima. Por isso, enquanto ser humano, limito-me a incentivar as pessoas a colocarem-se no lufar do outro, agora mais do que nunca. Eu também. Um fenómeno como este afecta-nos a todos mas, por alguma razão, tendemos a comportar-nos como se fôssemos os únicos afectados. Como se o Universo tivesse conspirado apenas contra nós. Somos impacientes, agressivos. Inconscientes – ou pior, indiferentes, à realidade tão ou mais complexa de quem está à nossa frente. Essa confissão de ignorância, o benefício da dúvida que se traduz em tratar com compaixão alguém cuja história naquele momento exacto desconhecemos, é o melhor que nos podemos oferecer por agora… Até que nos possamos abraçar de novo.

 

Obrigada, Pilar, por esta entrevista! Sem dúvida que as tuas palavras me fizeram refletir sobre muitas coisas importantes!

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