Holocausto: Qual o verdadeiro significado da Shoá para a humanidade?

shoa

Ler sobre o Holocausto, ou Shoá, em Portugal é, obrigatoriamente, ler livros da Professora Irene Flunser Pimentel. Uma investigadora do Estado Novo e do Holocausto, possui uma vasta obra publicada e já tive o privilégio de a entrevistar e podes ler essa entrevista aqui. Com o primeiro mês do ano do Clube de Leitura dedicado a assinalar o Dia em Memória das Vítimas do Holocausto, impunha-se a leitura deste livro. A leitura deste livro foi, para mim, profundamente enriquecedora. Permitiu-me descobrir sobre o verdadeiro significado da Shoá, as suas consequências que se perpetuam no nosso presente e qual foi o verdadeiro papel de um Portugal neutral na Segunda Guerra Mundial. E aqui partilho hoje contigo a minha review sobre o livro. Já conhecias o livro “Holocausto” de Irene Flunser Pimentel?

 

Shoá: Qual o percurso da autora até chegar a este livro?

Ao ler o livro “Holocausto” senti que este era o livro que faltava, escrito por um português, sobre este tema. A Professora Irene Flunser Pimentel é uma autora que dispensa apresentações. Historiadora portuguesa nascida em 1050, tem dedicado a sua carreira como investigadora ao período contemporâneo de Portugal, focando especialmente o Estado Novo e a PIDE, destacando-se os seus livros “O Caso PIDE/DGS” (2017), “História das organizações femininas do Estado Novo” (2000) e “Cardeal Cerejeira, o Príncipe da Igreja” (2010). Tem ainda um conjunto alargado de livros publicados focando o Holocausto e o papel de Portugal nesta fase dramática da História Mundial, como são exemplos “Salazar, Portugal e o Holocausto” (em co-autoria, 2012), “O comboio de Luxemburgo” (em co-autoria, 2016) e “Espiões em Portugal durante a II Guerra Mundial” (2013). Estamos perante uma especialista nesta época e neste tema e é muito positivo vermos um livro que resulta de uma profundíssima investigação e reflexão de uma autora portuguesa sobre uma época sobre a qual os livros são de autores estrangeiros (também, na minha opinião, muito fruto de não termos tido esta guerra dentro de portas e a termos vivido à sombra de uma neutralidade mais ou menos confortável).

 

Shoá: Como está organizado este livro?

Este livro encontra-se dividido em duas partes. A primeira é dedicada à elucidação do significado da Shoá (aquela que a autora prefere ainda que menos conhecida no nosso país). No primeiro capítulo da primeira parte, são apresentadas as seis palavras essenciais para a compreensão desta guerra e do que foi a Shoá: extermínio, genocídio, holocausto, hurbn, “solução final da questão judaica” e shoá. Concretamente, este último termo não possui qualquer conotação religiosa e tem a vantagem de “restituir a palavra às vítimas, através de um significado da língua original judaica” (pág. 32) e que surgiu nos ano 30 do século XX, referindo-se ao genocídio de judeus em França. Tem o duro significado de “aniquilamento, ruína, desolação, calamidade, tumulto, catástrofe ou grande desastre” (pág. 32), reunindo em quatro letras a crueldade que for perpetrada contra judeus, ciganos, homossexuais, comunistas e tantas minorias na Europa debaixo da suástica nazi. Esta primeira parte descreve ainda as diferentes etapas da Shoá (janeiro de 1933-agosto de 1941, para as primeiras três etapas, e setembro de 1941-verão de 1944, com a última etapa). Fala, ainda, sobre os campos de concentração e os centros de morte nazi (trazendo à luz a explicação do motivo pelo qual temos tantos relatos de sobreviventes de Auschwitz e não acontece isso quanto a Treblinka ou Sobibor) e a reflexão sobre o conhecimento gradual dos crimes nazis a nível internacional e a forma como a justiça internacional os encarou. A segunda parte é totalmente dedicada a descrever o lado português desta fase negra da História, o papel de Salazar e do Estado Novo e a forma como o nosso corpo diplomático espalhado pela Europa se comportou, permitindo salvar milhares de judeus.

 

Shoá: A minha opinião sobre o livro “Holocausto”

Posso dizer que gostei bastante deste livro. Quem esteja à espera de um livro com pouca profundidade e densidade de informação, este não é o livro certo para ti. Mas se, pelo contrário, gostas de um livro que te traz a agregação de muitas e inúmeras fontes de informação, que te dê aquele sentimento de vasculhar nos arquivos sobre a História do nosso país e da Europa e se gostas de uma boa investigação histórica feita de forma sustentada em factos e evidências, tens mesmo de ler este livro. Ainda que a primeira parte do livro possa ter informação que é mais do conhecimento para quem já está habituado a ler sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto, é na segunda parte que reside a maior atratividade do livro para mim.

A segunda parte explora o papel que Portugal teve, no meio da sua “neutralidade” face ao conflito mundial e a forma como o Estado Novo e a sua estrutura ministerial teve um importante papel a dizer no salvamento dos milhares de judeus que pediam um documento que lhes permitisse sair dos países ocupados onde residiam. Percebe-se que Aristides de Sousa Mendes não caminhou só no seu papel de cônsul com profundo sentimento de preservação dos direitos humanos. Com a profunda descrição que este livro nos apresenta, percebe-se que as decisões do Estado Novo, em andar na corda bamba entre o longo acordo de amizade com Inglaterra e a eventual proximidade daquilo que Alemanha vendia ao mundo como ideologia, se traduziu em muitas formigas a trabalhar no interior do Regime contra essas decisões, mesmo que isso pudesse colocar em causa as suas vidas e as suas carreiras. Percebe-se que os olhos fechados e a indiferença mascarada de neutralidade não conseguiu apaziguar os ânimos de quem se sentia revoltado com as inúmeras notícias que iam circulando sobre os campos de concentração e os centros da morte e fez realmente alguma coisa para lutar contra isso.

Um livro como este já se impunha, mostrando que o Holocausto é muito mais que Auschwitz e que, apesar dos cerca de 3300 km que nos afastam desse local em Oswiecim, na Polónia, Portugal teve um papel muito mais tendencioso do que neutral neste conflito e nesta solução final. Altamente recomendado este livro a quem quiser saber mais sobre o Holocausto e sobre os meandros do Estado Novo. Um dos melhores livros que li até agora este ano.

 

“Holocausto”: O resumo da minha opinião

O que mais gostei neste livro?

  • A investigação alicerçada num conjunto bastante robusto de evidências históricas e de documentos, demonstrando a profundidade da investigação histórica que foi realizada para a escrita deste livro.
  • A apresentação de diferentes quadros com as estatísticas dos campos de concentração e centros de morte. Sendo eu da área das ciências exactas, ver os dramáticos números plasmados desta forma é, ao mesmo tempo, assustador e profundamente esclarecedor da dimensão do que foi a Shoá e o do seu impacto na Humanidade.
  • A capa, um emaranhado de arame farpado mas esbatido… Para mim, uma boa representação daquilo que a Solução Final foi para muitas pessoas, em particular para os portugueses sob a sombra do Estado Novo: algo enevoado, a que não queremos dar relevância mas que não é por isso que perde o seu carácter profundamente aglutinador, aprisionando alma e corpo.
  • O tamanho de letra da edição não compromete a leitura, algo que poderia acontecer caso fosse utilizado um tamanho de letra mais pequeno.

O que menos gostei neste livro?

  • Na segunda parte do livro, com a dimensão de personalidades do corpo diplomático português que iam sendo introduzidas e com a descrição quase minuto a minuto dos acontecimentos, senti-me um pouco perdida. Mas nada que não ficasse resolvido, voltando algumas páginas atrás.

 

Detalhes do livro:

Título português: “Holocausto”

Autor: Irene Flunser Pimentel

Editora e data de edição: Temas e Debates, setembro de 2020

Encadernação: capa mole

Páginas: 592

Classificação temática: História – História em geral

Classificação Goodreads: 4.00

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *