Segunda guerra mundial

“Se isto é uma mulher”: Quando as atrocidades têm voz de mulher

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Quando pensei o projecto “Ler é respeitar a história” sabia que o livro “Se isto é uma mulher” tinha de ser um dos primeiros que iria ler. Por diversas vezes me disseram que parecia mentira eu ainda não tinha lido este livro. Confesso que as mais de 700 páginas deste livro de Sarah Helm editado pela Presença impõem respeito! Mas o peso deste livro vai muito para além da parte literal. “Se isto é uma mulher” descreve, de forma clara e sem filtros, as atrocidades relatadas pelas sobreviventes de Ravensbruck. Este campo de concentração, localizado frente a Fürstenberg e a 90 quilómetros da cidade de Berlim, foi o campo feminino do sistema da Solução Final de Hitler e energicamente conduzido por Himmler.

“Se isto é uma mulher” não um livro que se leia de ânimo fácil… Nem um livro de que se consegue falar facilmente depois da leitura. Para quem já leu “Se isto é um homem”, de Primo Levi, este é o livro que devem ler a seguir. Depois de um intenso relato no masculino, é obrigatório ler como foi sobreviver ao Holocausto na condição de mulher. O que foi ter de ver bebés nascerem e morrerem no espaço de dias num campo de concentração. O que foi ter mulheres presas no campo de concentração tornarem-se kapos piores que os soldados das SS. O que foi ver instintos de sobrevivência exacerbados porque apenas se queria chegar ao dia seguinte com vida. “Se isto é uma mulher” é isto e muito mais. Depois de ter conseguido digerir a leitura que fiz, é tempo de partilhar convosco a minha opinião sobre este livro.

 

“Se isto é uma mulher”: Será apenas mais uma história contada no feminino?

Os relatos de sobreviventes do Holocausto no feminino não são inéditos aqui no blog. Sobreviver a Mengele em “As gémeas de Auschwitz” e a história de vida da meia-irmã de Anne Frank em “A rapariga de Auschwitz” são dois exemplos disso. No entanto, “Se isto é uma mulher” não poderia ser mais diferente desses dois relatos… Este livro foi ao cerne da questão e não mascarou as piores atrocidades que as mais de 120000 mulheres prisioneiras em Ravensbruck viveram. Neste campo de concentração, libertado pelos russos em 30 de Abril de 1945, tentou retirar-se aquilo que de mais precioso tem o ser humano: o respeito pelo próximo e a vida. Nem o facto de, no final da guerra, Hitler dizer ao mundo que não existiam campos de extermínio em solo alemão. Sim, ele estava mesmo ali ao lado… Nas proximidades do local idílico onde cresciam os filhos bastardos de Himmler. Onde oficiais SS viam os seus filhos crescer em comunhão com a natureza. E onde não se ser ariano significa que a vida terminaria ali…

É admirável o trabalho de pesquisa e de compilação de informação feito por Sarah Helm em toda a recolha de testemunhos e a sua condensação neste livro. Confesso que todo o seu estado psicológico, no final da escrita do livro, devia ser de esgotamento. Eu senti-me um pouco assim quando terminei a última frase do livro. Senti-me cansada. Senti uma dor inexplicável a percorrer-me o corpo. E senti, acima de tudo, um profundo sentimento de impotência face a tudo aquilo que pude ler. Saber a história de mulheres, como as “coelhas” polacas, que viram o seu corpo trucidado pelas piores experiências médicas. Saber de enfermeiras, prisioneiras do campo, que ajudaram mas que também falharam com as restantes. Posso dizer que este livro deixou em mim um turbilhão como nenhum outro. Mas este foi um livro que, ao mesmo tempo, entrou directamente para o meu top de livros preferidos sobre o Holocausto. E que recomendo a todos vocês. Um relato forte como este merece toda a nossa atenção!

Se quiserem conhecer um pouco mais da história das “coelhas” polacas, sugiro-vos a leitura do livro “As cartas de Auschwitz”. E lembrem-se: as vossas leituras e a reflexão que fazem sobre elas são a melhor forma de homenagear que passou por este tipo de atrocidades. Porque ler é respeitar a história!

 

 

“Se isto é uma mulher”: O que fica para vocês da minha review?

  • Dei a classificação de 5 estrelas no Goodreads ao livro “Se isto é uma mulher”.
  • “Se isto é uma mulher” é o livro certo para vocês se querem conhecer relatos de sobreviventes de um dos piores conflitos do século XX.  Não conheço outro livro com um relato tão forte contado no feminino como este resultante do trabalho de pesquisa fantástico desenvolvido por Sarah Helm.
  • O preço de venda deste livro é de 29,90€ podendo encontrá-lo com 10% da WOOK. Sendo um livro publicado há mais de 18 meses, podem conseguir encontrá-lo à venda por valores de desconto superiores. Estejam igualmente atentos ao site da Editorial Presença pois podem conseguir encontrar este livro em promoção.
  • Prós de ler “Se isto é uma mulher”: resulta de um profundo, intenso e prolongado trabalho de pesquisa da autora. Compila os relatos de muitas sobreviventes de diferentes nacionalidades, demonstrando o efeito dos campos de concentração em tantas pessoas. Contras: não é um livro de leitura que se faça e ânimo leve. É intenso e podem precisar de dar pausas na vossa leitura para assimilar toda a intensidade de conhecimentos que são partilhados.

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