Entrevistas

“Para onde vão as meias que desaparecem?”: A entrevista com Margarida Porto

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Para onde vão as meias que desaparecem?! Este deve ser, provavelmente, um dos maiores dilemas da humanidade. Coloca-se tudo na máquina de lavar, a roupa gira à volta do mundo e depois? Na hora de estender a roupa, existem sempre meias desaparecidas e que ninguém sabe onde foram. Ao que parece, a Margarida Porto, uma jovem autora portuguesa, parece ter descoberto a resposta para este dilema. E nós temos de ler o livro dela para ficar a saber tudo, tudo!

Não conhecia a Margarida até ela me contactar através do Instagram e me dar a conhecer este seu livro infantil. Não conhecia a Margarida nem o seu trabalho mas é esta uma das maravilhas de ter um bookstagram: a oportunidade de conhecer novos autores e novos que, sem as redes sociais, podia nunca chegar a ver. Se não sabes o que é um bookstagram espreita este artigo que escrevi ou o que a própria Margarida escreveu. A Margarida acha que nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças e é verdade! Ele deve ser escrito para a família que o vai receber no colo. Para a educadora que o vai ler na sala na hora do conto. E para todos os adultos que nunca deixaram de ser crianças! Com os olhos postos em todas as meias perdidas do mundo… Vamos conhecer melhor a autora por detrás deste livro infantil?

 

“Para onde vão as meias que desaparecem?”: As palavras da Margarida sobre o seu percurso

Antes de partilhar a entrevista, gostaria de agradecer à Margarida todo o trabalho que desenvolve diariamente por todos os bookstagrammers e livrarias independentes. Acreditando no potencial que todos nós, leitores, podemos ter na promoção de bons hábitos de leitura, a Margarida acredita na criação de sinergias e na divulgação do nosso trabalho. Por isso, faz todo o sentido convidar a Margarida para uma entrevista e podermos divulgar esta autora portuguesa que merece todo o nosso carinho.

Com o mote da conversa em torno do livro “Para onde vão as meias que desaparecem?”, sentem-se confortáveis e desfrutem desta entrevista. Muito obrigada, Margarida, por toda a tua simpatia e disponibilidade.

 

Hoje falamos do livro “Para onde vão as meias que desaparecem?”, mas antes do livro importa conhecer um pouco melhor a autora. Quem é a Margarida Porto e como nasceu a paixão pela escrita? 

Dizer quem sou é sempre – ironicamente – difícil. Posso começar por falar de como nasceu a paixão pela escrita, pois tornou-se uma parte intrínseca daquilo que eu sou hoje. Em criança, sempre gostei muito de histórias. De ouvi-las e de folhear os livros, mesmo sem saber o que lá estava escrito. E tinha uma enorme vontade de contar as minhas também. Talvez tenha sido por isso que me apressei a aprender a ler e a escrever no primeiro ano. Ainda estávamos nas cinco ou seis primeiras letras e eu já tinha devorado o manual de Português para saber ler tudo. 

Mal aprendi a escrever, comecei a fazer histórias ilustradas sobre dinossauros – o meu tema preferido da altura. E ao longo dos anos, fui escrevendo contos que oferecia no Natal à minha família, que sempre me incentivou muito a continuar. Só tive um ano da minha vida em que parei de escrever completamente, e foi depois da morte das minhas duas bisavós (ambas no espaço de um mês). Foi um ano importante, que me ensinou muito sobre a importância de parar para viver e sentir, amadurecer e só depois sentar-me para escrever.

Fora isso, sou uma miúda de 27 anos, copywriter de profissão que tropeçou na gestão hoteleira durante uns anos e que se apaixonou pela literatura infantil quando percebeu que são os melhores livros para voltarmos a descobrir quem verdadeiramente somos.

 

Onde te inspiraste para as personagens deste livro? Andam por aí a avó, a Sara e o Ricardo?

A história deste livro é, precisamente, uma homenagem a uma das minhas bisavós: a bisavó Alzira. Ela tinha o bonito costume de tricotar meias (e não só!) para toda a família. E o avô Ernesto, que também aparece na história, era o meu bisavô, que ainda tive a sorte de o conhecer por uns anos. Fiz questão de que a ilustração se aproximasse muito aos seus traços reais e posso dizer que a Carolina (ilustradora) fez um trabalho absolutamente incrível.

Em relação à Sara e ao Ricardo, quis construir personagens que refletissem algumas características, sonhos e medos de crianças que conheço. Contudo, no que diz respeito à ilustração, pedi que estas personagens se assemelhassem à minha prima Petra e ao meu primo David, pois tinham uma ligação especial à minha bisavó. Curiosamente, o Meia-Leca foi inspirado numa cadelinha muito especial para um colega meu, que tinha precisamente este nome. Achei tanta graça que tive de incluir na história. Agora, a Meia-Leca é uma estrelinha, mas fica eternizada nesta história.

 

Não pude deixar de achar o título deste livro muito engraçado… “Para onde vão as meias que desaparecem?”. Como surgiu a ideia para este título e esta história?

Antes de responder a esta pergunta, importa dizer que a ideia de escrever um livro infantil nunca me tinha passado pela cabeça. Só que tive uma pessoa que me desafiou a participar no concurso do Pingo Doce e eu decidi arriscar. Tive de aprender como escrever um livro infantil e andei meses a debater-me sobre o tema. 

E a ideia surgiu num dia em que estava a estender roupa, no momento em que peguei numa meia que já andava há meses sem par. Logo a seguir, vi uma story da Capicua a falar sobre este “dilema” e foi a confirmação. Tinha mesmo de descobrir para onde é que vão as meias e escrever sobre isso. Daí, foi muito fácil escrever uma história, pois lembrei-me imediatamente da minha bisavó Alzira e decidi que, no mínimo, ia fazer-lhe essa homenagem.

 

O teu livro fala de acreditar em sonhos, de amor e de como devemos procurar nos amigos as forças de que precisamos. Qual é a tua principal mensagem sobre amizade e amor que quiseste transmitir aos pequenos leitores com a tua história?

Na verdade, eu procurei contar uma história que tocasse o coração das crianças. Contudo, a minha intenção também foi tocar os corações dos adultos, que muitas vezes se esquecem da criança que foram e que, na verdade, ainda trazem consigo. Quis abrir espaço para que se pudesse olhar para os sonhos e os medos, com coragem e amor, e quis que se pudessem retirar muitas mensagens ao longo de toda história. Por isso, a mensagem principal do livro é aquela que mais ressoar a quem o lê.

 

Depois da leitura, o que gostarias que miúdos e graúdos associassem a este teu livro, como mensagem final?

A minha mensagem final é precisamente aquela com que termino o livro: Tal como nas meias, no amor e na amizade não importam as diferenças. O que importa é que cuidemos uns dos outros, aquecendo os pés ou a alma. E que, por vezes, amor é deixar aqueles de quem mais gostamos partirem, mesmo que seja para sempre. Porque nós guardamos, com todo o carinho, as memórias que temos no coração. E a vida é a nossa maior aventura.

 

Sei que a tua ligação à promoção de bons hábitos de leitura não se encerra no teu papel como autora. Estás a construir uma base de dados de bookstagrammers e de livrarias independentes para que a leitura possa ir mais longe. Queres partilhar um pouco mais sobre este teu projecto?

A edição de um livro como autora independente foi um caminho desafiante e bastante enriquecedor. Infelizmente, em Portugal, o mercado ainda está muito fechado às editoras e às grandes distribuidoras. Ou seja, uma edição de autor dificilmente chega a uma FNAC ou uma Bertrand. Acredito que existam, mas não são uma prioridade. Contudo, apercebi-me de que as livrarias independentes são mais abertas a conhecer os autores e a receberem os seus livros. É uma relação mais próxima. Ao mesmo tempo, descobri uma comunidade que não fazia ideia de que existia: os Bookstagrammers. Para quem não sabe o que são Bookstagrammers, escrevi um artigo sobre isso aqui.

Ao conhecer um pouco melhor este mundo, percebi que muitos Bookstagrammers têm links de afiliados com as grandes distribuidoras e pensei: E se estes influenciadores pudessem ajudar as livrarias independentes e os novos autores? E se os autores pudessem ter uma base de dados onde se concentram os contactos das várias livrarias e Bookstagrammers, para divulgarem e distribuírem o seu trabalho? E se pudéssemos tirar partido de toda esta comunidade literária para fazer mexer o mercado de uma forma um pouco diferente, incentivando as pessoas a apoiarem os pequenos negócios, optando por comprar nas livrarias independentes?

Para além disso, existe pouca informação que está muito dispersa sobre como publicar um livro como autor independente em Portugal. Para não falar, da falta de transparência de algumas editoras e falta de informação sobre como realmente funcionam. Eu senti muito essa dificuldade e tive a sorte de contar com a ajuda de um colega meu que também publicou os seus livros, que me passou alguns conhecimentos e dicas que foram essenciais. Por isso, o meu objetivo é transformar o meu site num centro de recursos, com conteúdos úteis e interessantes para quem está a iniciar-se neste mundo ou que pretende conhecer um pouco mais sobre ele. Por isso, esta base de dados é apenas o começo de algo que quero muito desenvolver a longo prazo.

 

Por último, que mensagem final gostarias de deixar a todos os pais que procuram desenvolver hábitos de leitura nos seus filhos?

Eu acredito que a melhor forma de desenvolver hábitos de leitura nos filhos é a dar o exemplo. As crianças gostam de imitar os pais, por isso se os pais tiverem hábitos de leitura, provavelmente vão incutir isso nos filhos. Contudo, eu não tenho filhos, apenas posso falar daquilo que observo em pessoas que conheço. Acima de tudo, acho importante e carinhoso que os pais leiam as histórias com os filhos. É um bonito reencontro com a criança que somos. E isso faz-nos compreender as crianças que eles são.

 

Obrigada novamente, Margarida. Foi um prazer conhecer-te melhor e poder mostrar, afinal, para onde vão as meias que desaparecem!

 

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